domingo, outubro 26, 2014

Crônica sobre a morte na periferia

Zildão
da rua de cima
não fumava
não bebia
era crente
morreu novo
e de repente.

sábado, setembro 20, 2014

Trama

O cheiro de outrora
não cabe como antes,
mas vive em mim
implacável
se entrelaça
nos meus sonhos
numa trama
do passado, deixando
vestígios
do presente que se constrói
na contradição em si
entre ontem e hoje,
o não e o sim,
entre você em mim.
Entre a tragédia e o riso
deixe o drama
que este eu mesma vivo.


segunda-feira, julho 28, 2014

Rabisco no abismo

amada amante
faz desse sonho
curva sinuosa
em velocidade constante

provoca essa fuga delirante
pelos seus caminhos:
cintura, gosto, pelos
e diz para ir adiante

grita-me teu gozo fulgurante
extrapola minhas regras
enterra no jazido
meus medos alarmantes

faz de mim eterna imigrante
penetrando no desconhecido
sussurrando dentro do ouvido
essa aventura tolerante

entre meus dentes dilacerantes
grudei sua carne que excita
e me hesita a desejar exitar
ser mais que uma aspirante.

sexta-feira, julho 25, 2014

Ebriedade dos Alquimistas

Oh Saudável vida boêmia
Tempo em que o corpo era leve
Pois só a Alma, carregada de Sentidos, fazia-se presente
Quando cada esquina era lar
Cada curva era vertigem
e cada derrapada um novo fôlego

Oh Pútrida vida sóbria
Cheia de rigidez, aspereza e angústia
Prendendo-nos às correntes, classes e falsa moral
Onde cada rosto era cinza
No Vai-vem de devaneios urbanos
E o cheiro de prazer em lugares imundos

Oh Desejável Morte Ébria
Que acalenta o corpo enfermo, e liberta a alma criativa
Que floresce o que há de mais vivo e humano
Onde se bebe com Satã, num eterno open-bar
Onde confabulam as melhores intenções
E se faz acreditar que é apenas um delírio.

Ornellas e Leonardo Samsa
29/01/2009

Talvez o amanhã

Eu queria ser
não mais que um groove pra você,
daqueles da parada de sucesso
que a gente repete cem vezes
sem ao menos perceber.

Ou então um filme
no vhs ou dvd, um tanto clichê,
que a gente guarda na estante
tira a poeira num domingo qualquer
e sente uma vontade (gritante) de rever.

Não obstante queria ser talvez tudo
confusão no quarto
um tiro no escuro
sujeito oculto do seu verbo
nó na garganta afogado no seu mundo.

Sabe quem no futuro
possa ser só sonho leve,
igual quando a gente rala o joelho
numa brincadeira tão breve,
carregando a cicatriz até a velhice
e que quando lembra
dá vontade de viver.

08 de julho.

segunda-feira, julho 14, 2014

Antítese

A ratazana que surge
do bueiro urbano
é a síntese
do desespero humano.

Bóra

não vá embora
embora
eu pense que
devas ir

(Adriano Del Duca)

domingo, junho 29, 2014

Partir

Começo esse título
com um verbo para escancarar
o movimento de se despir
das velhas vestimentas
e do próprio corpo

Arrancar as raízes
da terra, do asfalto
em um breve e longo
lamento para enfrentar
as perdas perfeitas
e o porvir desse compasso

Caminhar nas curvas
pela estrada dos sem-rumo
se apropriar de cores, novos sabores
quentes, beijos e
pimentas ardentes.

sexta-feira, junho 20, 2014

Dos nossos

para os dias difíceis, de luta
um trago, um grito, uma palavra
para desorganizar
a ordem.


quinta-feira, junho 19, 2014

Imperativo

Agarra-me se puderes
Decifra-me se quiseres
Usa-me se souberes

Beija-me com seu gosto
com seu gozo.
Envolva-me com sua carne
com seu charme
Queira-me apressada e
profundamente

Escute
silente
o que às vezes
digo:

Mergulha-me no fundo
Afoga-me na cama
Respira-me na rua, crua

Responda-me aquela pergunta
se quiseres
se puderes
se souberes
sonhar.

domingo, junho 15, 2014

A(flor)a

Vamos ficar aqui a toa
Nessa preguiça boa
Jogando conversa fora
Beijando aquele beijo
Que demora
Que aflora
A vontade de ficar dentro

E fora
Olhando seu olhar
Que não me olha
Que não demora
Mas nos joga

Nesse céu infinito
Arrastando os dias
Bebendo espuma
Fazendo eu me lembrar
Que a noite tem várias vidas
E eu, apenas uma.

Camará

A gente era tão jovem
E o amor mais ainda...

Foi com hora marcada,
Pé na estrada

Ousava e perdia
Amava e esquecia

Derrotas políticas,
Fracassos da vida

A gente vai acostumando...

A não lutar pelo que se acredita
A não amar porque se machuca
A preencher o vazio com superfícies febris

A vida é tão depressa
E pede muito de nós

Uma dose nos dias difíceis
E coragem pra ficarmos a sós

Ter o coração jovem
E a clareza da maturidade

Deixar-se incendiar o peito
 Nas esquinas perigosas da nossa cidade

Acostumar a se enfrentar
Não deixar a vida passar
Nos amar e mudar as coisas.

13/08/2013

Longe

Contas, prazos
Cartão de ponto
Você sumindo
Eu me escondendo
O amor esmorecendo

Me da um pouco mais
Do teu perfume
Das suas dívidas
Aflitas.

Só um pouco de tudo
Daquilo que enterramos vivo
Do seu coração
Afoito.

23/08/2013

Queixa

Parecia raiz
Mas é folha seca
E o outono já passou.

Levou consigo
A carne trêmula
A paciência
Nossos jogos
Insistentes
De amor.

04/09/2013

Do lado de cá

Falo de coisas típicas.
Na linha vermelha às seis
a vida é muito simples,
na exaustão fica apertada

O entregador de pão na quebrada
O apito da próxima estação
A brisa que me leva a você,
pelo sim e pelo não.

Pode não ter amor em SP
Mas tem suor e calor
Vô italianinho na Benedito
Paixão, mano,
no fio da navalha
com esse cerol

Um coração
que de cima da laje
sente o fel
e esse sol.

23/08/2013

Borboleta

     Bor
 bo
    le
tas
     Vão
             e
     Vem

Pra gente
ir
mais
        além.

06/02/2014

Quatro

onze de março
pra lembrar
só fumando cigarros
outrora quinta
hoje terça
teço um lamento
de tédio
de desesperança
de ausência
nesse primeiro andar.
trago a ilusão
que não vive mais dentro de mim
trago essa emoção
para que eu possa queimá-la
enfim.

11/03/2014

quarta-feira, maio 28, 2014

Ode à família


família tem aos montes
família A, B, C
família não sei do quê.

a minha não tem sobrenome famoso
nem sorriso falso de margarina.

a gente corre no osso
desviando da guilhotina.

mas levamos entre os dentes
essa ambiguidade
essa confiança, tão demodê.

domingo, maio 18, 2014

Cicatriz

me cicatrizar
no seu corpo
perdurar
na sua vida
dar mais um laço
nesse nó, nesse linho
correr junto
este caminho
contra corrente
infinitamente
até que esse jugo,
o amor,
nos liberte.

sexta-feira, maio 09, 2014

Transa

transei no
trânsito
transitei pelo
seu corpo
num transe
tântrico.

terça-feira, maio 06, 2014

corpo e espírito

um anjo
safado
tal qual
de chico
deixou
o perfume
e a vontade
em mim
como um
querubim.

sábado, maio 03, 2014

Arrebatamento

Quando a gente pensa
Em quanto tempo faz
Vê que tudo foi mais
Que um lapso atroz

Veio como carne, como bicho
Saliva marcando meu corpo
Meu suor em você
Lascivo nosso jogo

Cama, sofá, chão
Ônibus, areia, colchão
Deixando o relógio depressa
E meus batimentos aos poucos

Tanta fuga
De mim, de nós, de tudo
Teu cheiro
Em mim, no quarto escuro
Teu beijo
Um apelo, tatuado no peito

Veio e ficou.
O pensamento inerte
As horas descompassadas
Vestígio de amor

Nada mudou.
Teu coração criança
E a minha paciência
De guardar
Anseios, gozo e apelos
E te cravar
Sob nosso sonho.

13/10 - 16h20

quarta-feira, abril 30, 2014

Quem diria

mas quem diria você
trocando olhares para não sofrer
na trama dialética
do esquecer

quem diria você
quebrando os ovos
arrastando os pés
deixando sujo
pra eu varrer

diria você
que isso é coisa minha
que aprendeu bem a regrinha
tão covarde do viver

você
joga na cara
as minhas dívidas, as minhas dúvidas
numa segurança frágil
dá pra perceber

mas vice-versa, revides da vida
você se engana
eu acho que vou seguindo
pra não me perder.

segunda-feira, abril 28, 2014

Puro, quente e amargo



















A fumaça do café
Sobe pela chaminé
Vicia e se esvai
Como aquela
Mulher.

domingo, abril 27, 2014

Entre os anos

Nada tão domingo
O sol ventando
O céu azulando

Eu e você acordando

Nada tão íntimo
A cortina balançando
A cidade respirando

Você e eu contando

Nada tão nosso
O cafezinho cheirando
Os dedos poetizando

Eu e você lutando.

sexta-feira, abril 25, 2014

Fugas

alguns beijos
transa fugaz
alguns copos
dançando com teu jazz
arranha me assanha
curta-metragem voraz
algo ficou de nós.


quinta-feira, abril 24, 2014

ESCALA SEM MI Menor

Sem a corda mi
  Eu bebo
     E não consigo
dormir.

quarta-feira, abril 23, 2014

De quando a vontade de voltar foi embora

A vida cobra seu preço no mercado.

Feijão, arroz e carne
A pizza, fica pra depois.

Só vou dormir mais tarde,
Cozinho pra nós dois.

Prateleiras cheias de mistério
A vida com medo e anseio.

24/08/13 - 20h07

Segunda-feira

Eu preciso, mas não consigo
Do lado de cá
Carregar pela estrada o fim da história

Visto meus óculos,
Encho meus pulmões
Com o amargo gosto de memória

Nossa luta, os sonhos, os versos
Insistem em ficar um pouco
Até a próxima esquina
Até eu cansar de correr
E o coração bater rouco.

12/08/13 - 13h06