quinta-feira, outubro 22, 2009

Irracionalidades cotidianas

Acordou aquele dia, assim como todos os outros, tarde.
O sol era inoportuno, invadia sua intimidade, seu corpo, seus olhos.
Levantou, acendeu um cigarro. Sabia que o primeiro era sempre pior que o resto. Mas que importava?
Seu pulmão preto, o estômago vermelho.

O primeiro tocou a campainha.
Gritou:
"Entre"
"Cheguei muito cedo?"
"Sim."
"Quer que faça um café?"
"Forte, por favor"

Bebia sem açúcar. Gostava de sentir o verdadeiro gosto das coisas, mesmo que fosse amargo. Não disfarçava, nem com cafés.

"Estava com saudades, gostaria de te olhar mais dias."
"Hum"
"Gosto de você"
"E o machucado? Ta melhor?"
"Ah sim, fiz curativo e estou cuidando todos os dias"

Não queria abrir furúnculos na pele dele. Não agora, nunca.

"Que horas é aquele seu compromisso mesmo? Não vá se atrasar..."
"Você quer que eu vá embora?"
"Não quero que se atrase"

Os olhos escondidos e taciturnos do rapaz se voltaram para o centro da Terra.
Gostaria de correr para o fundo de um lago bem gelado. Não. Não conseguia sair da frente dela.
Seu coração ardia demais. Incendiava seu rosto.

"Podemos nos ver mais tar..."
"Estarei ocupada"
"Você não vê que... eu... amo você..."
"Sim, consigo ver"

Voltou-se de costas, abriu a porta pesada de madeira para ele e sentou-se em frente a tv, esperando que ele saísse e a fechasse.


O segundo tocou a campainha.
Abriu a porta, sabia que era ele. Não gostava de ter esse tipo de intuição. Quer dizer...
"Cheguei tarde?"
"Um pouco"
"Já almoçou?"
"Não tenho fome"

Ele falava muito. Isso também não era novidade. Sempre ouvia mais.

"Que música é essa que ta tocando?"
Ele se sentia envolvido.
Talvez pela voz, pelo cheiro, pelos olhos. Pela liberdade.
"Não lembro o nome mais"

Ele pensou que como a música, ela era tão íntima e tão distante. Tão difícil.
Ela sentiu que como um dia de verão no final da tarde, ele vinha tempestuoso, mas o dia sempre clareava.

"O que as pessoas fazem quando se apaixonam?"
"Não sei, acho que depende"
Ela sempre tinha muitos caminhos. Ele perguntou novamente.
"O que você faz quando se apaixona?"
"Geralmente, nada"

04h30

segunda-feira, outubro 12, 2009

Mim

A vida passa, os beijos passam, eu passo.
Passei pro lado de lá e vejo que a vida é tão azeda.
Mas o azedo também passa a vez, fica fora de moda.
E a moda é tão padronizada, consequentemente, os azedumes também.
Por que temos que saborear as coisas, as pessoas, com tanto temor?
Queria poder quebrar esses vidros, esses espelhos.
Romper sempre é doloroso, mas a gente expande, faz diferente.
Eu estava sentada, ouvindo o relógio, olhando cada minuto passar.
Meus ombros duros, meus dedos cruzados, minhas pernas estáticas.

Eu dormia durante algumas horas e nas outras noites fiquei acordada.
Bebi
Sorri
Dancei.

terça-feira, outubro 06, 2009

Outubro

Ontem foi segunda-feira, aniversário do meu pai.
Eu poderia divagar sobre o que foi o meu dia, como foi, o que encontrei, o que pensei. Eu queria ter dado um abraço forte e não apenas ligar dizendo eu te amo. Eu queria. Mas lembro que estou evitando falar do passado. E não viver o passado é difícil. Sou diariamente condicionada a pensar no que vivi ou no que poderei viver. Todos somos. É tão árduo viver o presente, que às vezes penso se temos algum presente a ser vivido.
Falando nisso, hoje é aniversário do meu irmão. Acho que ele estaria lindo com mais idade. Os cabelos dele eram longos.
Pra falar a verdade, hoje, hoje, hoje eu to um pouco melancólica. O mês de outubro é bem ruim, assim.
Se eu pudesse fazer uma revolução pra apagar do nosso calendário essas datas de final de ano, concerteza encontraria muitos adeptos.
Aliás, adeptos à essa melancolia deslocada, apática, vazia, pertubadora é o que não falta!

Viva a revolução socialista.