domingo, abril 12, 2009

Dialética - Parte I

- O que fazes nesse amplo tapete alvo e sangrento? Perguntei.
- Observando os gestos, entendendo o que a leva esconder seus sentimentos de si mesma. O que a leva a escondê-los de ti? E de mim e os fantasmas? O que nos restam?
- Quantas perguntas, nobre samurai! (disse com sotaque irreconhecível, banhado de sadismo) Tens algum palpite?
- Sente-se, nobre Narciso. Olhe-se. Sinta-se. Beije-se. Fuja.
- Não devo...
- Por que não? Todos somos almas assombradas num purgatório eterno. Eu escolhi a fuga e estou aqui. Livre.
- Com seus fantasmas lhe falando ao pé do ouvido toda hora?
- Vamos falar de você. Não foi pra isso que veio? Masturbe-se. É uma ordem. Renasça e então, entenderás. Nem a você essa merda lhe diz respeito, quem dirá para outrem. Você não está no controle. Você está perdendo casa milésimo de ponto dia após dia. Você não suportará. Aquela praga de tu seres somente o que tens. E labutar noites ao fio da navalha enferrujada, a fim de poder comprar o que não tens, para ser alguém que não serás e poder conquistar o poder. Essa desgraçada me roubou tudo (ou o nada) que achava que possuía. Vida.
- Eu já sei de tudo isso. Cala sua boca imunda.
- Você não sabe. Está sempre fugindo.
- Fugindo de quê? Não foi você que sugeriu a fuga?
- Você foge do combate frontal, foge da valentia, foge do clareado que tento lhe apresentar, foge de admitir que tudo que falo é real. Foge de enxergar o seu próprio Eu e tentar ser algo em si. Foge de mulheres. Você nunca viu o inferno. Quero que fujas das asneiras que já corres há algum tempo.
- Sou artista. Sou tudo que desconheço. E o que na verdade reconheço, são traços de espelhos estilhaçados. Tenho medo. Do poço fundo. De levitar e jamais voltar. Sei das minhas asneiras e besteiras, sei de tudo que não sou e que quero ser, mas vejo por fora. Não sei se quero vê-las por dentro.
- Por que pedes conselhos, então? Seria bem mais fácil esqueceres só, ou no máximo como companhia, álcool, ervas, sintéticas e venais. Uma saída bem coerente para alguém bem-sucedido como você, que sobrevive no meio de uma selva horripilante, mantém algum “status quo”, mata milhões e dorme tranqüilo.
- Não me lembro de homicídios.
- E suicídios?
- Sou feito de carne e osso. Não resisto.
- Realmente, confesso que é mais doloroso rejeitar muitos vinhos ruins do que esperar para apreciar poucos bons. É a alma dos negócios.
- O que é mais fácil?
- Não temos essa opção no cardápio. Tampouco iremos providenciá-la. Mude, caso não goste. Simples, meu caro. Tens que aprender a respeito das tais soluções drásticas. Esse inferno está permeado de boas intenções.
- E quanto a ela? Onde esconder seu corpo?
- Está começando a entender o jogo. Mas acalme-se. O renascimento é gradual. Ela pode ficar por último, já que não passa de uma boneca inanimada de seu dia-a-dia globalizado. Mas lembre-se: não peques, não escolha a saída menos árdua, não a decepe.
- Sou fraco achando que sou forte. Sou maldoso enquanto caridoso.
- Deite-se, já sei de cor suas óperas de sangue, dor, lágrimas, falsidades e chantagens. Fecha os olhos. Vou lhe dizer (sussurrando ao pé do ouvido): sou seu fantasma.
- Senti arrepios absortos. Abri os olhos.

12/04/09
Das 2h às 04h47