domingo, março 29, 2009

Memória suja

Antes que eu me esqueça
Vem cá amor,
Vêm me ajudar a arrumar esses livros, esses discos, esses sapatos.
Ajuda a limpar esse pó que faz tanto mal pra minha saúde
Ajuda a beber pra desatar esse nó que machuca amiúde.

Ouço vozes do outro lado da porta
Elas se amam como podem
Apressada e superficialmente
Ouço sussurros ferozes
Necessitam de alma... Calma

Ah meu anjo,
Eu não creio mais nesse mundo
Nesse dançar sem música
Nesse êxtase que se mostra profundo
No alçar sem voo

Pegue em minhas mãos
Sinta que me resta tão pouco de mim
E só sobraria se você estivesse aqui, assim...
Vendo o céu acordar
Deixando o coração despertar

Antes que eu me esqueça
Deita aqui do meu lado
Faz reviver o passado
Corra pela minha cabeça

Antes que eu me esqueça...
Anota seu nome em mim.

29/03/09
21h36

domingo, março 15, 2009

Orgulho

O ato de ouvir música pra mim começa com muita vontade e pouca coragem, principalmente nas horas em que a tristeza vem fazer visita. Respirei um bocado de coragem e liguei o rádio. A primeira música foi João e Maria, justamente essa, que sempre me tocou, apesar de nunca ter transpassado esse posto de aleatória. Então, disse pra tristeza que estava com saudade, pedi pra sentar-se, beber-me, achegar-se, dá-me seu colo pra eu poder chorar, mais uma vez. Ela tomou minhas mãos em seus braços e me convenceu a reprimir o instinto autodestrutivo que, por vezes, me rapta.
Agradeci com um discreto sorriso fugitivo de lágrimas. A única vontade era de reconstruir meu cais pra poder sentir liberdade. De inventar o amor, pra suportar os ais. De não encontrar maldade, me fazendo sonhador. Essa necessidade de sempre construir algo é trazida por uma espécie de amor que vive em constante duelo com meus medos e orgulho. Mas um amor incompleto e só, que traz a inquietação de projetar alguma luz pra clarear esse trem subterrâneo.
O que mais me tranca a garganta é ver nosso passado sustentar o presente. É enxergar nossas memórias se tornarem mais que delírios superados. Somos canções, fotografias, planos e poesias. Dois cansados de amar, de noites e dias, de casas vazias, de carpetes e mar. Estamos perdidos nas amarras da ilusão, ancorados num tempo que não constrói e incitando a distância que destrói. Arranquei minhas asas de vôo e as entreguei pra ti, na ânsia de ver-te realizar desejos seus e não de perder-te dos braços meus. Agora, vês o quanto o céu e a terra estão longe? Agora vês o quanto estou inerte? Sem perceber, ficamos apáticos, iguais, distantes demais.
Quando cansares de viver nos ares e seus desejos chegarem ao fim, quando vieres com sinceridade perguntar por mim, estarei ainda no mesmo lugar. Receber-te-ei com curiosidade, tomarás do meu café e fumarás do meu cigarro, porém, não me peças carinho. Terás minha companhia, mas não minha alegria, que partiu contigo e se dissipou em nuvens. Voltastes tarde, mas seu lugar está ainda reside em meu leito e podes ficar o quanto tempo precisar, só não me peças para chorar.
De repente da paixão fez-se pó e do amor fez-se um nó. Quero não essa distância, aterrisse com minhas asas. Faça que do pó renasça uma sublime vida e que o nó se desatine em bela escultura.


14/03/09 - 22h59
Baseado em fatos não reais.