segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Jogo Ferino

Não faço jogo de cartas marcadas, prefiro correr o risco de, às vezes, ganhar ou perder.

Elas já estão colocadas sobre a mesa. Todas em seus devidos montes e mãos. Meu coração acelera, minha pele freme, minhas mãos gemem esperando o fluxo de tal liberdade desconhecida. Era uma sensação perigosa, mas ao mesmo tempo em que consumiu pavor, transbordou em leveza.

O ódio se levantava e corroia todas minhas vísceras que cuspiam por paz. Mas ele não me abandonou. Meu velho companheiro de guerra, ele não me puxou do precipício, mas ele se atirou ao meu lado. Mão com mão. Pêlo com pêlo. Ego com ego, mesmo que ferido.
Meus olhos vermelhos se tornavam e, eu não fazia questão de esconder a carnificina exposta a olho nu. Queria que todos vissem meu corpo sedento em agonias. Meus olhos maléficos e caridosos, ao mesmo tempo, gozando com o cheiro e relações de prazer que emanava no ar. Com toda a força de minha sobriedade aproveitei - e mantive - o que de mais supérfluo se punha na mesa. Dei a primeira cartada.

Questionei Afrodite sobre seus truques e, não se livrando do estigma de todas as deusas de mesma origem, ela não me respondeu. Olhei-a nos olhos, mas dessa vez, eles me diziam inconscientemente algo improvável, que eu não conseguiria enxergar em outros tempos, algo que soava como desafio... A mim.

Calculei os segundos necessários para selar em seus lábios o sim que ela tanto esperava ouvir. E o selei de modo molhado, de modo que nossa liberdade ultrapassava as galáxias. Repousei-me na cadeira de balanço e fiquei a ouvir os ruídos que o ambiente transmitia. Os ruídos que me puseram a uma loucura que não sei bem quantificar. Eles, os ruídos, se embrenhavam pela minha mente e não consegui soltá-los. Prendi-os em meus membros superiores tão castos de solidão ímpar. Mas não pude me esquecer que solidão a dois, a três, e assim por diante, é que se torna auto-suficiente. E, embora eu queira ser, me apeguei ao vício de transparecer demais.

Afrodite e Apolo conversavam no Olimpo e eu os olhava com tanta intensidade que, por um momento, esqueci daquelas superficialidades colocadas na mesa. Eu já não estava só, eles jogavam comigo. Éramos quatro, originados do mesmo Pai. O ódio ao meu lado, Afrodite e Apolo. Olhávamos-nos enfurecidos, feito briga de cães raivosos e, nos apreciávamos de modo em que aquele sangue frio saia das veias e levava consigo a moral e as posses.

Nua de energia prestei a rabiscar os rostos que se deliciavam naquela loucura imunda. Apolo é o Deus da luz radiante, que enfrenta grandes batalhas contras os grandes, que se concebe também como reflexo maléfico e vingativo, a ponto de transformar grandes Reis em servos, em cidadão padrão. Ele dá a morte e a vida. Afrodite dispensa grandes descrições. Ela é amada, guerreira e bela.

Eu sorria com facilidade e sarcasmo de duas fantasias rasgadas tão diferentes se unirem e, por si só, comporem melodia tão escura e envolvente, comporem o figurino da peça, distribuírem as cartas na mesa. E, nessa hora, eu respirei o máximo que meus pulmões suportam. Tentei sugar toda a paz que o mundo “real” me sugeriu, mas não consegui. Continuei com ódio e atormentada. Esse tormento, na verdade, não se passa daquela outra vida que renasceu após a pílula, sem volta, da visão sublimada. E essa outra vida só quer, em suas mãos, o Poder.
30/01/09

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