quinta-feira, dezembro 24, 2009

Versos de Natal

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado! Obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Manuel Bandeira
1939

quinta-feira, outubro 22, 2009

Irracionalidades cotidianas

Acordou aquele dia, assim como todos os outros, tarde.
O sol era inoportuno, invadia sua intimidade, seu corpo, seus olhos.
Levantou, acendeu um cigarro. Sabia que o primeiro era sempre pior que o resto. Mas que importava?
Seu pulmão preto, o estômago vermelho.

O primeiro tocou a campainha.
Gritou:
"Entre"
"Cheguei muito cedo?"
"Sim."
"Quer que faça um café?"
"Forte, por favor"

Bebia sem açúcar. Gostava de sentir o verdadeiro gosto das coisas, mesmo que fosse amargo. Não disfarçava, nem com cafés.

"Estava com saudades, gostaria de te olhar mais dias."
"Hum"
"Gosto de você"
"E o machucado? Ta melhor?"
"Ah sim, fiz curativo e estou cuidando todos os dias"

Não queria abrir furúnculos na pele dele. Não agora, nunca.

"Que horas é aquele seu compromisso mesmo? Não vá se atrasar..."
"Você quer que eu vá embora?"
"Não quero que se atrase"

Os olhos escondidos e taciturnos do rapaz se voltaram para o centro da Terra.
Gostaria de correr para o fundo de um lago bem gelado. Não. Não conseguia sair da frente dela.
Seu coração ardia demais. Incendiava seu rosto.

"Podemos nos ver mais tar..."
"Estarei ocupada"
"Você não vê que... eu... amo você..."
"Sim, consigo ver"

Voltou-se de costas, abriu a porta pesada de madeira para ele e sentou-se em frente a tv, esperando que ele saísse e a fechasse.


O segundo tocou a campainha.
Abriu a porta, sabia que era ele. Não gostava de ter esse tipo de intuição. Quer dizer...
"Cheguei tarde?"
"Um pouco"
"Já almoçou?"
"Não tenho fome"

Ele falava muito. Isso também não era novidade. Sempre ouvia mais.

"Que música é essa que ta tocando?"
Ele se sentia envolvido.
Talvez pela voz, pelo cheiro, pelos olhos. Pela liberdade.
"Não lembro o nome mais"

Ele pensou que como a música, ela era tão íntima e tão distante. Tão difícil.
Ela sentiu que como um dia de verão no final da tarde, ele vinha tempestuoso, mas o dia sempre clareava.

"O que as pessoas fazem quando se apaixonam?"
"Não sei, acho que depende"
Ela sempre tinha muitos caminhos. Ele perguntou novamente.
"O que você faz quando se apaixona?"
"Geralmente, nada"

04h30

segunda-feira, outubro 12, 2009

Mim

A vida passa, os beijos passam, eu passo.
Passei pro lado de lá e vejo que a vida é tão azeda.
Mas o azedo também passa a vez, fica fora de moda.
E a moda é tão padronizada, consequentemente, os azedumes também.
Por que temos que saborear as coisas, as pessoas, com tanto temor?
Queria poder quebrar esses vidros, esses espelhos.
Romper sempre é doloroso, mas a gente expande, faz diferente.
Eu estava sentada, ouvindo o relógio, olhando cada minuto passar.
Meus ombros duros, meus dedos cruzados, minhas pernas estáticas.

Eu dormia durante algumas horas e nas outras noites fiquei acordada.
Bebi
Sorri
Dancei.

terça-feira, outubro 06, 2009

Outubro

Ontem foi segunda-feira, aniversário do meu pai.
Eu poderia divagar sobre o que foi o meu dia, como foi, o que encontrei, o que pensei. Eu queria ter dado um abraço forte e não apenas ligar dizendo eu te amo. Eu queria. Mas lembro que estou evitando falar do passado. E não viver o passado é difícil. Sou diariamente condicionada a pensar no que vivi ou no que poderei viver. Todos somos. É tão árduo viver o presente, que às vezes penso se temos algum presente a ser vivido.
Falando nisso, hoje é aniversário do meu irmão. Acho que ele estaria lindo com mais idade. Os cabelos dele eram longos.
Pra falar a verdade, hoje, hoje, hoje eu to um pouco melancólica. O mês de outubro é bem ruim, assim.
Se eu pudesse fazer uma revolução pra apagar do nosso calendário essas datas de final de ano, concerteza encontraria muitos adeptos.
Aliás, adeptos à essa melancolia deslocada, apática, vazia, pertubadora é o que não falta!

Viva a revolução socialista.

domingo, julho 19, 2009

Partir

O tempo que olhamos pra dentro de nós mesmos é engraçado. Engraçado porque as recordações de quem somos vêm à tona. E além das recordações, sempre descobrimos algo preso, mas que não colocamos pra fora. Mas esse ‘algo’ preso consome cada centímetro de dúvidas e se transforma numa grande e desconhecida ausência.
E partir é um momento propício para que sintamos essa ausência nos arrebatar. Partir é quando enchemos a mala com objetos que nem sabemos direito o porquê o usamos e saímos em busca de uma imensidão que não temos.
Mas como interpretamos essa dúvida ou ausência?
Nós primeiramente sofremos. E é assim porque sentimos as malas vazias embora estejam cheias e também porque buscamos algo incerto, um mundo que não era pra ser nosso. Mas lutamos por ele...
Sofremos a dúvida, mas a solidão nos abre os olhos e nos agarra aos vestígios, ao que deixamos para trás, ao valor do mundo que é nosso. Ela faz primavera com o desejo de adorar mais ainda o mundo nosso, frente ao encontro com o outro que desconhecemos. Ela faz verão com nosso coração, e voltamos para onde tudo começou. A ausência nos permite mensurar os espaços deixados.
Por isso, esses encontros e despedidas constituem quem somos hoje, quem amamos e o indispensável para que continuemos com nossa essência.
Mas falemos agora em primeira pessoa.
Essa última ausência me deu a chance que prosear sobre aquele vazio que consumia. E me deu a clareza de qual tipo de amor que quero construir ao longo desses encontros e despedidas.
Eu não anseio o amor competitivo. Aquele que sabe-se lá se pode chamar assim: amor. Um convívio em que se disputam quem recebe mais olhares ou deixas; quem espera mais tempo pra ligar ou aparecer; quem é mais feliz ou infeliz.
Não quero o amor objeto. Aquele que somente enfurece se é tratado assim, sempre dizendo sim. Que só percebe a chama arder no peito nas horas de luxúria, de pele. Tem de haver amor, plenitude e equilíbrio no encontro do prazer.
A entrega na procura tem de ser leve, serena, disciplinada e cotidiana. Temos que enxergar mais o ser amado, acarinhá-lo e cobri-lo em novelos de amor e carinho serenamente. Temos que elevá-lo levemente. E, disciplinadamente, lembrarmos onde encontramos o outro para não torná-lo nosso objeto. Sermos conscientes das suas qualidades e defeitos, conhecê-lo. Sermos sinceros com nossas particularidades para igualmente lembrarmos que somos, também, especiais para o outro e assim, evitar disputas.
Quero um amor cotidiano. Aquele que procura no outro os motivos pelos quais o fizeram não ser multidão na multidão. Os motivos pelos quais o outro se tornou ímpar. As sensações e as particularidades que fizeram brotar o amor e aumentaram a vontade de participar daquele amor, de trazer para perto, de compartilhá-lo consigo. Um amor em que, depois do tempo que for, escolhemos as palavras mais justas e fraternas, escolhermos o melhor abraço acolhedor. Um amor junto, grudado e, ao mesmo tempo, livre.
São tantas palavras, mas elas não cabem mais nos meus dedos. Quem sabe um dia eu possa lhe dizê-las, lhe amá-la, lhe enfeitá-la.

19/07/09
21h42

sábado, junho 27, 2009

A voz...

"É uma voz poderosa dentro dele, poderosa como a voz do mar, como a voz do vento, tão poderosa como uma voz sem comparação. Como a voz de um negro que canta num saveiro o samba (...) A voz o chama. Uma voz que o alegra, que faz bater seu coração. Ajudar a mudar o destino de todos os pobres. Uma voz que atravessa a cidade, que parece vir dos atabaques, que ressoam nas macumbas da religião ilegal dos negros. Uma voz que vem com o ruído dos bondes, onde vão os condutores e motorneiros grevistas. Uma voz que vem do cais, do peito dos estivadores (...) dos malandros da cidade, do bojo dos seus violões, dos sambas tristes que eles cantam. Uma voz que vem de todos os pobres, do peito de todos os pobres. Uma voz que diz uma palavra bonita de solidariedade, de amizade: "companheiros". Uma voz que convida para a festa da luta. Que é como um samba alegre de negro, como o ressoar dos atabaques nas macumbas. Voz que vem da lembrança de Dora, valente lutadora. (...) Voz poderosa como nenhuma outra. Porque é uma voz que chama para lutar por todos, pelo destino de todos, sem exceção. Voz poderosa como nenhuma outra. Voz que atravessa a cidade e vem de todos os lados. Voz que traz com ela uma festa, que faz o inverno acabar lá fora e ser a primavera. A primavera de luta. (...) Voz que vem de todos os peitos esfomeados da cidade, de todos os peitos explorados da cidade. Voz que traz o bem maior do mundo, bem que é igual ao sol, mesmo maior que o sol: a liberdade. A cidade, no dia de primavera, é deslumbradoramente bela. Uma voz de mulher canta a canção da Bahia. Canção da beleza da Bahia. Cidade negra e velha, sinos de igreja, ruas calçadas de pedra. (...) Anos depois, os jornais de classe, pequenos jornais, dos quais vários não tinham existência legal e se imprimiam em tipografias clandestinas, jornais que circulavam nas fábricas, passados de mão em mão, e que eram lidos à luz de fifós, publicavam sempre notícias sobre um militante proletário, o camarada Pedro Bala, que estava perseguido pela polícia de cinco estados como organizador de greves, como dirigente de partidos ilegais, como perigoso inimigo da ordem estabelecida.
No ano em que todas as bocas foram impedidas de falar, no ano que foi todo ele uma noite de terror, esses jornais (únicas bocas que ainda falavam) clamavam pela liberdade de Pedro Bala líder da sua classe, que se encontrava preso numa colônia.
E, no dia em que ele fugiu, em inúmeros lares, na hora pobre do jantar, rostos se iluminaram ao saber da notícia. E, apesar de que lá fora era o terror, qualquer daqueles lares era um lar que se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia."

Porque a revolução é uma pátria e uma família.

(Capitães de Areia - Jorge Amado)

domingo, maio 10, 2009

Mate-me, por favor.*

Não farei mais a poesia de amor, sou todo o torpor
Buzinas soam nesse ar quente que envolve minha pele
As putas já estão nos hotéis, os pintores lavam seus pincéis
Luzes acesas em São Paulo. Tudo em seu lugar.
Os carros vão passando mais depressa
A lágrima que molha minha boca acompanha o descompasso
Chorei. Confesso que chorei. E...
Fugi, bebi e fumei e vomitei.
Deixei a melancolia embaraçar meu corpo
Ah esse coração roto
Ela me cedeu muitos lenços macios
Limpei a sujeira que era minha e, eu nem a conhecia.
Agradeci sem voz, só podia oferecer meus vazios.
Preciso lhe falar...
Meus olhos estão cerrados, de completo cansaço
Minhas mãos relutam a escrever, mas a dor não quer saber
A nau que me carrega está afundando
E é tão trágico e tão lindo.
Dessa vez não flutuarei
Termine de esculpir o jazido em mim
Menina enterre-me de vez
Trucide-me como você nunca fez
Pois morrer aos poucos não é tão poético assim...
Deixa a chuva cair e molhar-me
Essa sensação de liberdade
Liberta-me da chama azul, que só faz anular-me
Pela primeira vez, estou partindo
Buscarei o verdadeiro
O mundo é daqueles que mandam no amor

Mate-me! Por favor.

07/05/09 - 20h30



* Referência à camiseta usada por Richard Hell (década de 70)

segunda-feira, maio 04, 2009

Batalha Piegas

Ainda com gosto de café,
um pouco adoçado, na boca.
olho ao redor, vejo braços
e mais que isso, bocas e olhos.

A vida passa em cada despertar,
meus amores platônicos, o futebol,
meus gritos afônicos, o coração.

Meu presente se esvai
em cada segundo, tento poetizar
o por quê luto, padeço, entrego.
Estou no mesmo lugar,
o passado meneia-se dentro de meu ego
congela a água e os sais.

Veja que sou forte,
estou em invernos.
Ouvi dizer que mais tarde,
no âmago, cairá neve
ou granizos.

Os ventos marítimos não acalmam
deixam sua poeira nos copos,
em minhas mãos que repousam,
na brasa esfriando, no amor se acabando,
no peito socialista, na juventude egoísta.

Tenho minha vida em quais mãos?

Sinto a água gelada do rio nos pés,
meus abraços estão livres.
Aceno aos meus amigos, eles correm
e sorriem, crianças apanhando a pontapés.
Abraçam-me e beijam e me enamoram.

Pego o cobertor no armário.
Deito, sinto o cheiro ínfimo.
Vejo tudo ao contrário e,
quando penso ao redor,
sinto-os aqui em mim,
no íntimo.

03/05/09 – 22h

domingo, abril 12, 2009

Dialética - Parte I

- O que fazes nesse amplo tapete alvo e sangrento? Perguntei.
- Observando os gestos, entendendo o que a leva esconder seus sentimentos de si mesma. O que a leva a escondê-los de ti? E de mim e os fantasmas? O que nos restam?
- Quantas perguntas, nobre samurai! (disse com sotaque irreconhecível, banhado de sadismo) Tens algum palpite?
- Sente-se, nobre Narciso. Olhe-se. Sinta-se. Beije-se. Fuja.
- Não devo...
- Por que não? Todos somos almas assombradas num purgatório eterno. Eu escolhi a fuga e estou aqui. Livre.
- Com seus fantasmas lhe falando ao pé do ouvido toda hora?
- Vamos falar de você. Não foi pra isso que veio? Masturbe-se. É uma ordem. Renasça e então, entenderás. Nem a você essa merda lhe diz respeito, quem dirá para outrem. Você não está no controle. Você está perdendo casa milésimo de ponto dia após dia. Você não suportará. Aquela praga de tu seres somente o que tens. E labutar noites ao fio da navalha enferrujada, a fim de poder comprar o que não tens, para ser alguém que não serás e poder conquistar o poder. Essa desgraçada me roubou tudo (ou o nada) que achava que possuía. Vida.
- Eu já sei de tudo isso. Cala sua boca imunda.
- Você não sabe. Está sempre fugindo.
- Fugindo de quê? Não foi você que sugeriu a fuga?
- Você foge do combate frontal, foge da valentia, foge do clareado que tento lhe apresentar, foge de admitir que tudo que falo é real. Foge de enxergar o seu próprio Eu e tentar ser algo em si. Foge de mulheres. Você nunca viu o inferno. Quero que fujas das asneiras que já corres há algum tempo.
- Sou artista. Sou tudo que desconheço. E o que na verdade reconheço, são traços de espelhos estilhaçados. Tenho medo. Do poço fundo. De levitar e jamais voltar. Sei das minhas asneiras e besteiras, sei de tudo que não sou e que quero ser, mas vejo por fora. Não sei se quero vê-las por dentro.
- Por que pedes conselhos, então? Seria bem mais fácil esqueceres só, ou no máximo como companhia, álcool, ervas, sintéticas e venais. Uma saída bem coerente para alguém bem-sucedido como você, que sobrevive no meio de uma selva horripilante, mantém algum “status quo”, mata milhões e dorme tranqüilo.
- Não me lembro de homicídios.
- E suicídios?
- Sou feito de carne e osso. Não resisto.
- Realmente, confesso que é mais doloroso rejeitar muitos vinhos ruins do que esperar para apreciar poucos bons. É a alma dos negócios.
- O que é mais fácil?
- Não temos essa opção no cardápio. Tampouco iremos providenciá-la. Mude, caso não goste. Simples, meu caro. Tens que aprender a respeito das tais soluções drásticas. Esse inferno está permeado de boas intenções.
- E quanto a ela? Onde esconder seu corpo?
- Está começando a entender o jogo. Mas acalme-se. O renascimento é gradual. Ela pode ficar por último, já que não passa de uma boneca inanimada de seu dia-a-dia globalizado. Mas lembre-se: não peques, não escolha a saída menos árdua, não a decepe.
- Sou fraco achando que sou forte. Sou maldoso enquanto caridoso.
- Deite-se, já sei de cor suas óperas de sangue, dor, lágrimas, falsidades e chantagens. Fecha os olhos. Vou lhe dizer (sussurrando ao pé do ouvido): sou seu fantasma.
- Senti arrepios absortos. Abri os olhos.

12/04/09
Das 2h às 04h47

domingo, março 29, 2009

Memória suja

Antes que eu me esqueça
Vem cá amor,
Vêm me ajudar a arrumar esses livros, esses discos, esses sapatos.
Ajuda a limpar esse pó que faz tanto mal pra minha saúde
Ajuda a beber pra desatar esse nó que machuca amiúde.

Ouço vozes do outro lado da porta
Elas se amam como podem
Apressada e superficialmente
Ouço sussurros ferozes
Necessitam de alma... Calma

Ah meu anjo,
Eu não creio mais nesse mundo
Nesse dançar sem música
Nesse êxtase que se mostra profundo
No alçar sem voo

Pegue em minhas mãos
Sinta que me resta tão pouco de mim
E só sobraria se você estivesse aqui, assim...
Vendo o céu acordar
Deixando o coração despertar

Antes que eu me esqueça
Deita aqui do meu lado
Faz reviver o passado
Corra pela minha cabeça

Antes que eu me esqueça...
Anota seu nome em mim.

29/03/09
21h36

domingo, março 15, 2009

Orgulho

O ato de ouvir música pra mim começa com muita vontade e pouca coragem, principalmente nas horas em que a tristeza vem fazer visita. Respirei um bocado de coragem e liguei o rádio. A primeira música foi João e Maria, justamente essa, que sempre me tocou, apesar de nunca ter transpassado esse posto de aleatória. Então, disse pra tristeza que estava com saudade, pedi pra sentar-se, beber-me, achegar-se, dá-me seu colo pra eu poder chorar, mais uma vez. Ela tomou minhas mãos em seus braços e me convenceu a reprimir o instinto autodestrutivo que, por vezes, me rapta.
Agradeci com um discreto sorriso fugitivo de lágrimas. A única vontade era de reconstruir meu cais pra poder sentir liberdade. De inventar o amor, pra suportar os ais. De não encontrar maldade, me fazendo sonhador. Essa necessidade de sempre construir algo é trazida por uma espécie de amor que vive em constante duelo com meus medos e orgulho. Mas um amor incompleto e só, que traz a inquietação de projetar alguma luz pra clarear esse trem subterrâneo.
O que mais me tranca a garganta é ver nosso passado sustentar o presente. É enxergar nossas memórias se tornarem mais que delírios superados. Somos canções, fotografias, planos e poesias. Dois cansados de amar, de noites e dias, de casas vazias, de carpetes e mar. Estamos perdidos nas amarras da ilusão, ancorados num tempo que não constrói e incitando a distância que destrói. Arranquei minhas asas de vôo e as entreguei pra ti, na ânsia de ver-te realizar desejos seus e não de perder-te dos braços meus. Agora, vês o quanto o céu e a terra estão longe? Agora vês o quanto estou inerte? Sem perceber, ficamos apáticos, iguais, distantes demais.
Quando cansares de viver nos ares e seus desejos chegarem ao fim, quando vieres com sinceridade perguntar por mim, estarei ainda no mesmo lugar. Receber-te-ei com curiosidade, tomarás do meu café e fumarás do meu cigarro, porém, não me peças carinho. Terás minha companhia, mas não minha alegria, que partiu contigo e se dissipou em nuvens. Voltastes tarde, mas seu lugar está ainda reside em meu leito e podes ficar o quanto tempo precisar, só não me peças para chorar.
De repente da paixão fez-se pó e do amor fez-se um nó. Quero não essa distância, aterrisse com minhas asas. Faça que do pó renasça uma sublime vida e que o nó se desatine em bela escultura.


14/03/09 - 22h59
Baseado em fatos não reais.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Memórias de um lobo

Após a noite de caça, os lobos dormem.
Mas eu não conseguir repousar no manto estendido
Na sala...
Aconteceram muitas ocasiões para que eu pudesse chegar
Aonde chegava.
E a maioria deles previamente pensadas
Exceto a última caça.
Exatamente por ter pensado,
Que tomou seus caminhos com as próprias pernas.
Lobos são assim mesmo... Gostam de serem pegos
Numa empreitada.
Não obstante, e agora?
Por obséquio, o que faço com essas garras ensangüentadas?
Com essa pelugem desarrumada?
Com esse gosto que ainda vive em minha boca?
Meu corpo pede vida e descanso
Implora por um acalanto
Geme por um orgasmo
Como, um lobo feito eu, pode unir
A criança e o adolescente?
Ela me cai solenemente sobre as mãos...
Lobos podem se extasiar pela noite
Mas, eles dormem sozinhos
Acabam-se, com toda sua fartura.
E eu quero tanto você, para ver o dia amanhecer...


21h52 – 19/02/09
Mãos fartas, coração vazio.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Grito

Sabe, pensar na vida e fazer as devidas reflexões sobre ela é um ato bem útil e glorificante. Mas, quando digo vida, não é apenas a sua que está em jogo. Há milhares de outras mentes que influenciam a sua e isso é um círculo vicioso e recíproco.

É reconhecendo essas influências, que compreendemos o sentido pra tudo que vivemos no presente, que viveremos no futuro e até que ponto pode-se controlar os raios de distância que devemos ficar e deixar os outros ficarem.

O ponto crucial dessa jornada se encontra em saber ler o subentendido, o que lhe é mostrado, não necessariamente através da fala, pois as grandes verdades não precisam ser ditas para serem reconhecidas.

E, falando nessa linguagem "subliminar", podemos afirmar que as pessoas mais sensíveis e menos pragmáticas levam uma vantagem sobre as outras. Levam vantagem não só pela sutileza dos movimentos, mas também pela intuição.

Fazendo essas reflexões sobre o cotidiano, que me dei conta de quantas pessoas, inconscientemente ou não, desejam influenciar os rumos da minha vida. Isso não é de todo ruim. O ruim é usar de armas ilícitas para fraquejar o próximo, é assumir que não é capaz de lutar com seu próprio punho, escudo e espada, é colocar à prova um jogo leal e sincero... Coisa de perdedor mesmo sabe?

Se eu acreditasse em Deus, diria que ele é justo e, no fim, faz com que as máscaras, se houverem, caiam.
No entanto, seria interessante colocarmos a nós mesmos que, se nos incomodamos com algum ponto de nossas relações em geral, sejam com coisas, objetos ou pessoas, nós mesmos podemos nos armar e ir à batalha desmascarar o nosso inimigo, diga-se de passagem que o tornou porque quis, permeando outra lição importante: não devemos procurar inimigos, eles sempre se põem no ringue.

Tendo assim, a certeza de que as máscaras sempre caem antes do gongo final tocar e de que não basta sermos leais pra nós mesmos ou com entes queridos, é preciso lutar para se adquirir essa lealdade incondicional, porém, condicional para com os inimigos. É preciso não só desmascará-lo, como também exibi-la ao público presente, não só exibir sua máscara, como também seu verdadeiro rosto e, não só exibir seu rosto, como também mostrar que a inveja mata sim.
Ao adquirir o lugar mais alto de nós mesmos, saberás quando esse dia chegar e até onde você pode ir, amenizarás seus complexos pessoais, conhecerás o que tens de ruim e bom, saberás onde é o lugar mais nobre em ti e do que ele é capaz.

10/02/09 – 16h46

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Vida

Escrevo com muitos sentimentos em mãos e um cigarro na direita.Um pouco de apatia eu diria.Não sei, é difícil descrever sentimentos, sobretudo aqueles nossos.No de repente das noites anteriores, algumas coisas começam a adquirir forma e é exatamente isso que me traz um sentimento de certeza versus o de vazio.Ter a certeza de me ocupar com projetos, não planejados, não é necessariamente me preencher por dentro.Sei que todos precisamos de pausas. Para refletir, pensar. Pausas para durante ou posteriormente esse processo, lutar pelo que se sonha.Sigo em silêncio. Não profiro o que desejo. Não dou chances para o universo conspirar contra os meus anseios.Fico em pó, em cinzas, no mudo, a espera do dia.Sei que ele vai chegar e o aguardo com agonia, presteza e mais do que nunca, esperança.A vida é feita de inúmeras esperas. E eu partilho disso com meu ser e com todos os outros...Em silêncio.

Em 20/02/08 às 17h51, mas caiu como uma luva pro agora.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Jogo Ferino

Não faço jogo de cartas marcadas, prefiro correr o risco de, às vezes, ganhar ou perder.

Elas já estão colocadas sobre a mesa. Todas em seus devidos montes e mãos. Meu coração acelera, minha pele freme, minhas mãos gemem esperando o fluxo de tal liberdade desconhecida. Era uma sensação perigosa, mas ao mesmo tempo em que consumiu pavor, transbordou em leveza.

O ódio se levantava e corroia todas minhas vísceras que cuspiam por paz. Mas ele não me abandonou. Meu velho companheiro de guerra, ele não me puxou do precipício, mas ele se atirou ao meu lado. Mão com mão. Pêlo com pêlo. Ego com ego, mesmo que ferido.
Meus olhos vermelhos se tornavam e, eu não fazia questão de esconder a carnificina exposta a olho nu. Queria que todos vissem meu corpo sedento em agonias. Meus olhos maléficos e caridosos, ao mesmo tempo, gozando com o cheiro e relações de prazer que emanava no ar. Com toda a força de minha sobriedade aproveitei - e mantive - o que de mais supérfluo se punha na mesa. Dei a primeira cartada.

Questionei Afrodite sobre seus truques e, não se livrando do estigma de todas as deusas de mesma origem, ela não me respondeu. Olhei-a nos olhos, mas dessa vez, eles me diziam inconscientemente algo improvável, que eu não conseguiria enxergar em outros tempos, algo que soava como desafio... A mim.

Calculei os segundos necessários para selar em seus lábios o sim que ela tanto esperava ouvir. E o selei de modo molhado, de modo que nossa liberdade ultrapassava as galáxias. Repousei-me na cadeira de balanço e fiquei a ouvir os ruídos que o ambiente transmitia. Os ruídos que me puseram a uma loucura que não sei bem quantificar. Eles, os ruídos, se embrenhavam pela minha mente e não consegui soltá-los. Prendi-os em meus membros superiores tão castos de solidão ímpar. Mas não pude me esquecer que solidão a dois, a três, e assim por diante, é que se torna auto-suficiente. E, embora eu queira ser, me apeguei ao vício de transparecer demais.

Afrodite e Apolo conversavam no Olimpo e eu os olhava com tanta intensidade que, por um momento, esqueci daquelas superficialidades colocadas na mesa. Eu já não estava só, eles jogavam comigo. Éramos quatro, originados do mesmo Pai. O ódio ao meu lado, Afrodite e Apolo. Olhávamos-nos enfurecidos, feito briga de cães raivosos e, nos apreciávamos de modo em que aquele sangue frio saia das veias e levava consigo a moral e as posses.

Nua de energia prestei a rabiscar os rostos que se deliciavam naquela loucura imunda. Apolo é o Deus da luz radiante, que enfrenta grandes batalhas contras os grandes, que se concebe também como reflexo maléfico e vingativo, a ponto de transformar grandes Reis em servos, em cidadão padrão. Ele dá a morte e a vida. Afrodite dispensa grandes descrições. Ela é amada, guerreira e bela.

Eu sorria com facilidade e sarcasmo de duas fantasias rasgadas tão diferentes se unirem e, por si só, comporem melodia tão escura e envolvente, comporem o figurino da peça, distribuírem as cartas na mesa. E, nessa hora, eu respirei o máximo que meus pulmões suportam. Tentei sugar toda a paz que o mundo “real” me sugeriu, mas não consegui. Continuei com ódio e atormentada. Esse tormento, na verdade, não se passa daquela outra vida que renasceu após a pílula, sem volta, da visão sublimada. E essa outra vida só quer, em suas mãos, o Poder.
30/01/09